Após 12 anos, “Liga Profesional” tem novamente duas torcidas na Argentina

Após 12 anos, “Liga Profesional” tem novamente duas torcidas na Argentina Protagonista. Essa é a palavra que melhor define o que são as torcidas no futebol, pois sem as “hinchadas”, o futebol se torna cinza… e podemos provar! Quem não se lembra do quão difícil foi o período em que vivemos a pandemia da Covid-19, com as arquibancadas vazias, os estádios silenciosos, remoendo as emoções no sofá de casa? É inegável que o cerne do futebol é a torcida! Dentro dessa trama folclórica com inúmeras estrelas, personagens caricatos e movimentações bilionárias, um conjunto de pessoas compartilhando o amor por um escudo e suas cores, é a razão maior para a existência e resistência do esporte que é amado em todo o mundo. Em dias de clássico, as pernas não param quietas no lugar, aquele caminhar de uma lado para o outro, parece que irá abrir um buraco no chão, a barriga chega a doer de ansiedade, um misto de sentimentos e sensações, que só sossegam quando o juíz assopra o apito que autoriza a bola a rolar. O que dizer de vivenciar um clássico meio a meio então? Poupar a garganta a semana inteira para vencer o duelo na bancada, apoiar os 90 minutos e até além. Em minoria? Ver seu clube jogar como visitante, e fazer parte daqueles dez por cento, que podem, em coro, ecoar em todo o estádio e calar a torcida local. Essa era uma realidade distante para os aficionados argentinos, que desde 11 de junho de 2013, estavam proibidos de acompanhar seus times como visitantes, pois no dia anterior, uma tragédia criou um vazio nas bancadas. 10 de junho de 2013, cidade de La Plata. O Lanús lutava pelo título do Torneo Final Eva Perón, e enfrentaria fora de casa o Estudiantes, no estádio Ciudad de La Plata, pela 17ª rodada da segunda fase do campeonato argentino. Após o início da partida houve uma paralisação aos 8 minutos do 1º tempo, por confusões na torcida visitante, mas rapidamente a partida foi retomada. Os “Pinchas” fizeram valer o mando de campo, e abriram o placar aos 36 minutos, com Leandro Desábato. Aos 44 da primeira etapa, ampliaram com Zapata. Poucos minutos após o final do primeiro tempo, o que era apenas um banho de água fria para uma equipe que brigava pelo título, se tornou um momento de tristeza irreparável. Mesmo antes do árbitro iniciar a partida, uma confusão se formou na esplanada do estádio, quando torcedores “Granates” – que segundo relatos, estavam sem ingressos – forçaram a entrada, provocando confronto com a polícia local. A força policial foi implacável, reagindo brutalmente ao conflito, com tiros de balas de borracha, uma das quais, foi disparada à queima-roupa em Daniel Jerez, de 38 anos, que não resistiu ao ferimento e veio a falecer antes de dar entrada no hospital. Devido a notícia da morte de um “hincha”, a partida foi então suspensa, sendo retomada dias depois. Com o sentimento de luto e visivelmente muito abalada, a equipe “Granate” não foi capaz de alterar o placar, e viu o Newell’s Old Boys disparar na tabela. Após a fatalidade, a AFA – com anuência do Governo – decidiu proibir “los visitantes” na primeira divisão – a Liga Profesional – com o intuito de diminuir a violência nos estádios. A proibição que vigorava desde 2007 nas divisões de acesso, – quando um torcedor do Tigre foi morto por torcedores do Nueva Chicago – agora estava presente também na elite do futebol argentino, restando aos visitantes, apenas as competições internacionais e à Copa da Argentina – que é disputada com partidas eliminatórias em campo neutro. Desde então, os clubes argentinos passaram a se adaptar a essa nova realidade, inclusive, alterando a estrutura de seus estádios para receber apenas torcedores de seus clubes. Imagine… viver na capital mundial do futebol, aquela cidade que contém o maior número de estádios – para públicos acima de 10 mil pessoas – no mundo, que possui dois terços dos times da elite nacional, e conta com excelente infraestrutura de mobilidade urbana, e só poder assistir ao seu clube quando ele for mandante? Pois é, foram doze anos assim. É preciso ressaltar, que nem tudo são flores. Por contar com um grande número de estádios e equipes, a Liga Profesional, precisa de diferentes datas e horários, para conseguir organizar a logística de todos os jogos da rodada. Alguns deles, nada convencionais como aqui no Brasil, como por exemplo: Sextas-feiras às 19:00 ou 21:30 da noite, ou Segundas-feiras às 16:00 ou 18:00 da tarde. São datas e horários muito fora do esquadro da primeira divisão do campeonato brasileiro. O presidente AFA, Claudio “Chiqui” Tapia, anunciou no dia 17 de julho deste ano, o retorno gradual dos torcedores visitantes, algo que já vinha sendo ensaiado desde a superliga da temporada 18/19. Em coletiva, o presidente da federação de futebol argentina comemorou: “É um dia muito importante para o futebol argentino, que marcará um antes e um depois. Estamos trabalhando nisso há muito tempo; desde que o Ministro Javier Alonso assumiu o cargo, quase 100 partidas foram disputadas com os dois públicos. É um dia histórico porque marca o início do retorno dos torcedores visitantes, para que os clubes que têm condições e disposição possam recebê-los. É o início de muito trabalho pela frente para consolidar essa ideia, para a qual temos trabalhado em conjunto com todas as organizações”. Duas partidas serviram como teste para o retorno, o Instituto recebeu o River Plate no Mario Alberto Kempes, um dos clubes de maior torcida na Argentina – que ficou com cerca de 25.000 ingressos – e que goleou a equipe de Córdoba por 4 a 0. Mas a partida que inaugurou essa nova era no futebol argentino, é um tanto quanto emblemática, e roubou toda a atenção por seus detalhes. O Lanús – que participou da última partida com duas torcidas, em 2013 – recebeu em “La Fortaleza”, a equipe do Rosário Central liderada pelo campeão do mundo, Ángel Di Maria, retornando ao seu clube do coração após 18 anos.